Colearning Space

Relatório sobre um encontro de aprendizagem no Colearning Space Viena, Áustria com Claudia Mader, 2015.

Encontrar um terreno comum
"Você gostaria de nós dar uma aula do Método Feldenkrais sobre o tema: o andar?" O convite, que me deixou muito feliz, partiu de Stefan Leitner-Sidl, um dos membros fundadores do Colearning Space Viena.
Stefan e eu já tínhamos compartilhado ideias sobre a aprendizagem em várias de nossas conversas. Falamos de Ivan Illich, de Moshe Feldenkrais, de Laising, do aprender sem medo, do aprender como ocupação e do apoio à aprendizagem como profissão e vocação. Conversamos sobre escolas, educação e formação; sobre autoconhecimento e autorresponsabilidade; sobre liberdade e estruturas. Stefan é uma pessoa curiosa, além de ser um bom ouvinte. Com perguntas hábeis, ele me convenceu a falar sobre minhas experiências como artista e participante de um grupo de teatro experimental, como treinadora de movimento para produções teatrais e musicais e como professora do Método Feldenkrais. Percebemos que muitos de minhas experiências práticas  assemelham-se aos conceitos de Stefan e suas abordagens para uma forma alternativa de convivência humana.

Colearning Space Viena é uma abordagem comunitária inovadora na qual aprender e trabalhar são ações combinadas dentro de uma mesma área ou espaço urbano. Atualmente, está localizada na antiga fábrica de chapéu no 6º Distrito, Viena, Áustria. Além de ser um centro de aprendizagem LAIS para alunos entre 6 e 18 anos, o projeto oferece espaços de co-working, oficinas, estúdios, salas para ensaios e reuniões, etc. O centro de aprendizagem LAIS é um lugar onde crianças, adolescentes e adultos aprendem de uma forma natural. Eles pesquisam, desenvolvem, combinam, aplicam e aprendem a transmitir o aprendido. Em alemão, a origem da palavra "Lernen" (Aprendizagem) está associada a palavra "Nachspüren" que pode ter diferentes significados como: perseguir, sentir, seguir ou traçar. LAIS significa, na linguagem gótica, "eu sei" ou "eu tenho traçado" e na linguagem indo-europeia "trilha, traçado, sulco". Desenvolvido em Klagenfurt (Áustria) por Dieter Graf-Neureiter, o Laising combina a aprendizagem natural com a educação formal. Assim permite um trato natural com os requisitos que o nosso sistema de educação e muitos aspectos da vida quotidiana nos oferecem. Laising é aprendizagem viva - mergulhar no campo de todas as possibilidades e chegar juntos a uma essência, que permite a todos sentir que têm contribuído na experiência da aprendizagem.


Fazer diferenças
Eu chamo o meu trabalho muitas vezes de tutoria (apoio à aprendizagem). O tema de aprendizagem surge das necessidades dos alunos ou das pessoas que me contratam. O pedido de Stefan foi: faça algo sobre a nossa forma de andar, para que evitemos pisar forte com os calcanhares e, assim, Markus, que trabalha no andar de baixo da sala de movimento, poderia desfrutar de um ambiente mais silencioso.
Para evitar entrar na dinâmica de julgar e corrigir, traduzi o pedido de Stefan da seguinte forma: desenvolver capacidades de perceber diferentes formas de andar e poder aplicá-las. A partir do caminhar e do pisar forte podemos enontrar: o que é uma diferença? como experimentamos uma diferença? como é que podemos fazer uma diferença? o que faz uma diferença? A partir desses questionamentos, descobrimos que existem opções. Para aplicar estas opções, precisamos de um ponto de partida neutro. Esse ponto de partida neutro, por sua vez, aumenta nosso potencial e nossa presença compartilhada com os demais. Por outro lado, será que também conseguiremos fazer com que Markus desfrute de um ambiente mais silencioso?

A começar
Depois de um almoço e bate-papo animado com Stefan, contariando meu hábito de ser pontual, cheguei um pouco atrasada e fui recebida com expectativa pelo grupo. Este simples fato fez uma diferenca grande e agradavel para mim, pois muitas vezes chego demasiado cedo e fico esperando desamparadamente.

Um espaço grande e pessoas. Assim é no teatro, assim é quando ensino Feldenkrais. E sobre o piso um tapete, um tapete persa, um grande tapete persa que me faz lembrar das explorações teatrais de Peter Brook. Nos anos setenta, ele e o seu grupo passaram pela África, onde fizeram teatro de rua e um grande tapete definia o espaço do palco. Do mesmo modo, no Colearning Space Viena desenvolveu-se sobre o tapete, um ambiente de exploração creativa acompanhado de alguns espectadores que observavam atentamente a atividade. No Colearning Space Viena os alunos podem decidir como e se querem participar.

No início de uma aula com um grupo novo sempre gosto de escutar a voz de todos dizendo o seus nomes, apesar de não ter boa memória com relação a nomes próprios.. Fiquei impressionada como o ambiente do Colearning Space me ajudou a lidar com essa situação que em outras circunstancias foi mais estressante. Desta vez, comecei a improvisar com os sons, as semelhanças e as diferenças dos nomes, crie relações que disse em voz alta, e me lembrei de um monte de nomes. Foi como se pudesse utilizar meus anos de criatividade de forma eficaz para lidar com essa tarefa.

Mas por que os cangurus?
Começamos a falar sobre o caminhar e o som de nossos passos. Um menino disse que o pé produz som porque o arco do pé, em contato com o chão, formam uma cavidade e, como em um violão, o som amplifica-se a cada passo. Acrescentei que o nosso pisar causa vibrações no edifício e que poderíamos percebê-las com o nosso próprio corpo e, consequentemente, controlá-las.

Durante a preparação da aula, ocorreu-me a imagem de como os cangurus se locomovem. Então, perguntei aos presentes se os cangurus fazem barulho quando saltam. Não, porque eles têm pés muito longos e macios.” “Não, porque eles estão vestindo tênis.De um ponto de vista cinestésico, ambas as respostas são absolutamente corretas. Funcionam como imagens que evocam a sensação de andar amortecidos e convidam a probar de andar assim.

Como primeira exploração no espaço, caminhamos todos de diferentes formas. O modo de andar que mais se destacou foi o de ir para trás. Todos gostaram disso e repetiram uma e outra vez. Foi divertido e todos percebemos que o pisar assim é bem mais tranquilo. Alguém comentou que: “assim seria mais fácil andar e , ao mesmo tempo, carregar uma panela de sopa quente”.

Locomotiva a vapor
Em seguida, experimentámos um exercício que eu tinha desenvolvido pouco tempo. Ele era ainda novo e cheio de surpresas. Convidei a todos a ficar deitados do lado direito a uma distância que permitisse descansar uma mão sobre o ombro da pessoa que estava à frente. Isso feito eu ia dar um ligeiro impulso, movendo suavemente para frente o ombro da última pessoa. Em consequência, o movimento seria transferido de um ombro a outro, até chegar à primeira pessoa da fila. Em seguida, o movimento ia ser transferido por essa pessoa ao mover para trás o seu ombro. Queria ilustrar, desta forma, como o movimento está organizado em ordem sequencial (como numa locomotiva a vapor), tentando criar conexões que também estão presentes na locomoção de cada indivíduo.
Segundo os princípios da aprendizagem somática, o próprio exercício deve fazer com que o estímulo diminua para enfocar-se na transmissão do movimento de uma pessoa a outra e desfrutar dela. Mas a agitação na sala ainda era muito grande. Para Stefan, o único pai no grupo, não era fácil lidar com este momento. Percebi que ele queria ajudar a criar tranquilidade. Ignorei as tentativas dele e, ao contrário, comecei a integrar todos os impulsos que apareciam. Os alunos propuseram mudar de lugar. Logo quiseram deitar sobre o lado esquerdo. Em vez de começar com a ultima pessoa da fila alguém começou a mover-se no meio. Aumentamos a velocidade. Eu propus tentar descansar o pé no quadril da pessoa à frente. Nada funcionou. A locomotiva não andava. Entre todos, chegamos à conclusão de que era desconfortável e, por isso, paramos. Todos descansaram deitados de costas e ficaram felizes com esta pausa e, cada qual, teve um momento com si mesmo.

Apesar da dificuldade durante o jogo, agora todos se movimentaram mais suavemente pela sala e o chão vibrou menos. Todos perceberam e comentaram. Desse modo, percebeu-se como houve relação funcional neste jogo. Confirmou-se um dos princípios do Método Feldenkrais: ficar no chão para sair do campo de gravidade e fazer movimentos que integram todo o corpo melhora a qualidade de movimento na posição ereta.

Isso é engraçado!
"O que é uma diferença?" perguntei e obtive muitas respostas sobre como percebemos as diferenças e sobre como as fazemos. Cautelosamente, leveii-os a um experimento que aplicamos muitas vezes em Feldenkrais: a partir do entrelaçamento dos dedos diferir entre o habitual e o inabitual. Todos conordaram que o inabitual difere do habitual pelo o simples fato que se sente engraçado. Em seguida, propus que entrelaçassem os dedos dos pés. Como era algo novo para todos, tentaram com muito entusiasmo e concentração. Supus que isto levasse a um uso incomum dos pés ao estar de pé e no andar. Isso provou-se verdadeiro. Os participantes sentem como se os pés fossem maiores e “mais amplos”, e que o andar se torna mais suave e mais grudado ao chão. Contrariamente à minha expectativa, o pisar é, de novo, ruidoso. Então deduzi que para conectar essas novas sensações ao andar havia faltado explorar mais os calcanhares.

Saltar invisível
Na quarta proposta de jogo, o sossego ressurgiu e durou até o fim. Minha sugestão era ficar de pé com os olhos fechados e imaginar como seria dar um salto para a frente. Desta vez, eu fui persistente, quis que todos soubessem o que sentem ao imaginar um movimento. "Imaginar, imaginar, só imaginar”, repeti várias vezes até que todos pararam de saltar, colocando-se apenas em atitude de saltar, como se estivessem saltando. Em seguida tentámos saltar realmente e tudo voltou a ser selvagem e heterogéneo, engraçado e atrevido. Apenas uma menina saltaou de tal maneira que quase não se percebeu ou escutou. Ela encontrou o seu centro. Propus que todos fizessem "saltos invisíveis".

Não fazer nada
Pouco a pouco, o movimento converteu-se em um tranquilo estar de pé. Chegamos à neutralidade como um ponto de partida para a atividade. Espontaneamente, fiz uma proposta final: que todos ficassem parados enquanto apenas uma pessoa andava. Imediatamente, dois começaram ao mesmo tempo. A fim de não restringir os impulsos de ninguém, mudei a dinâmica do exercício: no máximo duas pessoas poderiam andar. Pouco a pouco, uma estrutura de auto-organização surgiu e todos aplicaram os elementos descobertos na aula. Escutaram a si mesmos e aos outros, improvisaram com o ponto neutro e o deslocamento. No tapete, criou-se um padrão de movimento e de relacionamento entre os participantes.

LAIS - Eu me tornei sabendo, aprendi, tracei
A experiência no Colearning Space confirmou todos os meus desejos e ideias sobre uma aprendizagem com direitos iguais e livre de angústia. Percebi que o ensino neste contexto é realmente muito fácil, dinâmico e natural. Fiquei impressionada com as ideias que os alunos trouxeram e como elas formaram uma experiência coesa com o material que eu tinha preparado mais as inspirações que emergiram espontaneamente durante a experiência. Espero que agora haja mais silêncio no escritório de Markus, se todos andarem para trás ou interlaçarem os dedos dos pés e o canguru calce os tênis de corrida.